Entrevista Capterra com mulheres em tecnologia

O pessoal da Gartner e Capterra entraram em contato comigo para fazer uma entrevista sobre mulheres na tecnologia. Como a entrevista foi por email, decidi publicar na íntegra o que eu respondi para eles.

Link para a reportagem final

Você se graduou e fez um mestrado em Oceanografia. Por que acabou se interessando pelo mundo da tecnologia? Foi autodidata?

Eu descobri a programação no segundo ano de faculdade ao trabalhar com MATLAB num projeto de iniciação científica [0]. Depois eu aprendi Python por influência de colegas em um estágio que fiz na Marinha. Continuei estudando porque eu me apaixonei pelo assunto. Meu primeiro programa que me foi efetivamente útil foi automatizar a confecção de mapas num estágio. Aquele programa reduziu meu trabalho de 4 dias para 15 minutos! Foi uma experiência incrível! Quando recebi a primeira oportunidade pra trocar de área, decidi arriscar tudo. Foi uma decisão muito difícil e contei com o apoio da minha mãe pra me ajudar financeiramente (o salário era bem menor e o trabalho bem mais longe). Eu nunca podia imaginar aonde essa decisão ia me levar!

Eu nunca fiz um curso formal. Eu sempre estudei muito [1] e tive pessoas dispostas a me ensinar o que eu não sabia. Aprender sozinha é possível, mas contar com boas mentoras é fundamental. E ter disciplina também. Se bobear a gente se perde num mar de cursos e livros! É preciso ter persistência e disciplina pra continuar os estudos sem ficar pulando de conteúdo em conteúdo. Eu tive sorte de ter bons mentores na minha vida, tanto pessoalmente (amigos) quanto profissionalmente, que me mostraram por onde seguir.

Você sentiu dificuldade para ingressar no mercado pelo fato de ser mulher? Pode nos contar sobre sua primeira experiência?

A minha entrada na carreira foi mais por sorte que qualquer outra coisa. Uma gerente viu meu trabalho com programação num evento local e decidiu me dar uma oportunidade. O trabalho acabou não sendo como eu esperava e eu tive que começar a aplicar pra outras vagas, e aí o negócio complicou [0]. Pouco tempo de experiência e sem diploma não fazem uma combinação bonita. O que facilitou o meu caminho foi a quantidade de pessoas que conheciam a minha história e sabiam o quanto eu estava disposta a fazer dar certo. Consegui várias entrevistas por indicação e muita vezes apenas pedi para que as empresas apenas olhassem meu currículo duas vezes. Nesse momento achei difícil não por ser mulher, mas pelo contexto geral.

Meu segundo trabalho foi por indicação. Fiz o processo seletivo e fui bem. Foi a chance da minha vida! Depois disso as coisas mudaram. Mas se tem uma coisa que nunca mudou foi que eu sempre tive o apoio de uma rede muito grande.

Eu tive problemas por ser mulher em outros momentos. Eu já fui retirada de 2 times porque os líderes técnicos, homens, não aceitavam que eu os questionasse. Vi outros homens com o mesmo perfil que eu indo bem nesses times, mas comigo era diferente. Já teve gente desmerecendo meu trabalho pelo fato de ser mulher e não ter um diploma. É preciso ter persistência e muitas vezes sangue frio.

Vejo que você participa de diversas iniciativas na área de tecnologia como voluntária. Pode nos contar um pouco sobre a sua participação em algum desses projetos? Você acredita que esse tipo de iniciativa também se preocupa em integrar mulheres?

Eu participei principalmente organizando eventos como a Python Brasil 2016, Conferência Latino-Americana de Python Científico (SciPy LA) 2016 e a Python Sul 2018. Além disso organizei diversos Django Girls [0] e dei aulas em eventos das Pyladies [1]. Tudo isso até virar diretora da Associação Python Brasil [2], que é a entidade que dá apoio burocrático aos eventos Python no Brasil. Além disso eu sou anfitriã do Pizza de Dados [3], o primeiro podcast brasileiro de ciência de dados, junto com duas outras amigas.

Acredito que esse ecossistema é fundamental para ajudar a aumentar a diversidade na tecnologia. Os eventos que eu participo sempre tem uma preocupação em serem um ambiente seguro, onde as pessoas podem ir sem ter medo. E esse ecossistema é importante não apenas porque ajuda a mostrar como programar e como impulsionar uma carreira na área, mas também criam justamente o tipo de rede que me ajudou a alavancar a minha carreira. Uma coisa que acontece muito é que as melhores vagas das empresas procuram primeiro uma indicação. Conhecer muitas pessoas e mostrar o seu potencial em uma comunidade de tecnologia gera oportunidades que dificilmente você teria ficando em casa [4].

Você vê um aumento da preocupação das empresas e das universidades/instituições de ensino em integrar as mulheres ao mundo da tecnologia e valorizar o seu trabalho?

Sim e não. Acredito que muitas empresas se preocupam com diversidade e trabalham duro para criar um ambiente diverso e favorável à pessoas de todos os tipos. Já existem diversos estudos que mostram que diversidade gera mais lucro [0], então acho que o cenário é mais positivo hoje.

O problema é que muitas empresas usam a diversidade como marketing, mas na verdade querem contratar profissionais excelentes por um salário mais baixo. E aí você junta pessoas inseguras, que tendem a não negociar bem seus salários com empresas que querem tirar vantagem e ainda sair como boazinhas. Integrar mulheresna área (ou qualquer minoria) implica em dar boas oportunidades mas também bons salários e um bom ambiente de trabalho.

Como você vê a evolução do mercado de trabalho em TI para as mulheres? Que conselhos você dá para as que estão começando?

Como comentei anteriormente, as coisas estão mudando. Hoje é relativamente fácil ler sobre a síndrome do impostor, criar ou encontrar grupos de apoio e aprender mesmo que você não tenha um diploma formal. Acho que temos espaço pra crescer, apesar de ainda ser difícil.

Meus conselhos são alguns, mas são de coração:

  • Faça sua rede de conhecidas: as melhores oportunidades estarão lá, e o apoio nas horas difíceis também. Sororidade sempre!
  • Aprenda bem pelo menos uma tecnologia. É fácil se perder num mar de linguagens e tópicos. Saiba ao menos uma coisa profundamente para te dar segurança e confiança.
  • Aprenda a se vender. Você precisa aprender seus pontos fortes e fracos. Aprender a mostrar o que você tem de melhor e como isso se encaixa na oportunidade que você está buscando. Nem sempre quem ganha é quem sabe tudo, mas quem sabe mostrar que está no lugar certo na hora certa.
  • Seja corajosa. Não é fácil e especialmente pra quem está começando. Use o que for ruim pra aprender e te levar pra frente. Aproveite as oportunidades que são dadas mesmo que você não se sinta 100% segura. Ninguém está pronto pras melhores oportunidades, na maioria das vezes as pessoas vão aprendendo no caminho. Não fique para trás.

Alguma mulher da área da tecnologia foi uma inspiração pra você? Se sim, por quê?

Acho que tem duas mulheres que eu admiro profundamente e que sempre me inspiram a ser melhor: Lorena Barba e Carol Willing.

Quando eu estava no meu mestrado conheci o trabalho da Prof. Lorena Barba [0]. Ela é professora na Universidade George Washington e eu encontrei seu site porque ela publicou 12 scripts mostrando como implementar a fórmula de Navier-Stokes, uma das mais complexas da área de dinâmica de fluídos, do básico ao avançado usando Python.

Na época eu estava fazendo aula de dinâmica de fluídos pro meu mestrado e eu era a única mulher na sala. Foi incrível ver uma mulher que misturava dinâmica de fluídos e programação! Me senti como se eu tivesse encontrado alguém pra me espelhar, um caminho pra seguir. Lembro-me da sensação até hoje. Além de professora ela também trabalha ativamente na NumFocus [1], organização que promove desenvolvimento científico e ciência aberta. Uma referência na área de pesquisa de ponta.

Quando eu já tinha trocado de área eu conheci a Carol Willing [2] numa conferência [3]. Ela foi presidente da Python Software Foundation, desenvolvedora do time principal do Python e do JupyterHub [4] e exemplo pra comunidade de Pyladies mundial. Ela tem um conhecimento técnico profundo aliado com uma preocupação enorme com as pessoas. É uma pessoa maravilhosa que tem sido referência no mundo Python e que é um exemplo pra mim. Eu tenho muita sorte de ter a conhecido bem no começo da minha carreira.

Você hoje trabalha no exterior. Vê alguma diferença com relação ao mercado de trabalho para mulheres na tecnologia no Brasil?

Sinceramente, não. Muitas empresas que eu apliquei eu seria a primeira mulher do time e esse trabalho, acredite, é muito difícil. Estive numa entrevista em que eu ia ser a primeira mulher engenheira de software. Ao perguntar o que a empresa iria fazer para mudar essa realidade, um dos rapazes falou que eles iam abrir time de vendas, e essa era uma área dominada por mulheres (não era bem disso que eu estava falando).

Aí você decide arriscar e entrar como a única mulher do time. Por conta disso, algumas empresas esperam que você seja a pessoa que impulsiona a diversidade no time. E aí você está numa enrrascada: se você faz esse trabalho, você trabalha dobrado. Ou então você tem que tirar tempo das tarefas do time, correndo o risco de não ser promovida por não fazer trabalho técnico o suficiente [0]. E se não faz, fica presa num mundo masculino. É uma situação bem difícil.

O que eu vejo de diferença é a presença de empresas de médio e grande porte que tem uma cultura muito mais preocupada com a diversidade. Podendo entrar em alguma dessas empresas dá pra escolher onde entrar e se você vai ter o ambiente que deseja. Acho que isso também é válido no Brasil de certa forma. Se você tem mais tempo de experiência fica mais fácil escolher e você fica menos vulnerável ao mercado.

Você é otimista para o futuro das mulheres na tecnologia? Por quê?

Sou demais! Acho que hoje a gente tem muito mais consciência de como sororidade é importante! E quanto mais mulheres (e todas as minorias) entrarem, mais referências vamos ter, mais apoio e mais fácil vai ser. Acho que é uma questão de tempo. Mas precisamos trabalhar muito ainda. Precisamos de ambientes seguros, de mulheres em cargos de liderença e de muito trabalho para não cairmos em ciladas conhecidas. Precisamos vencer nossos medos, não ter medo de negociar um salário melhor ou de valorizar o que fomos nós que fizemos. Precisamos ser ambiciosas sem que isso seja algo para se ter vergonha [0]. Temos tudo para conquistar o espaço que queremos e merecemos.


Abraço!
Leticia

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