Um conto da montanha

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Existem pessoas que conseguem tocar piano maravilhosamente bem enquanto outras não conseguem nem bater palmas no ritmo (eu). Existem pessoas que conseguem se expressar bem e pessoas que não conseguem lidar com os inúmeros pensamentos que fluem pelo cérebro. Existem inteligências múltiplas.

Nos últimos dias tive diversas conversas filosóficas com pessoas de todos os tipos. Um tema recorrente foi uma sensação de incapacidade, de mediocridade, misturado com gotas de tristeza e um punhado de cegueira. Cegueira? Sim, cegueira.

“O problema com o mundo é que os idiotas são seguros e os inteligentes são cheios de dúvidas” (Bertran Russel — eu acho).

Vejo pessoas maravilhosas, com diversos talentos distintos, se considerando “medíocres”. Pessoas que estão na metade de uma escalada árdua que olham pra cima e dizem “meu Deus! Como estou longe do topo!” enquanto esquecem quantas pessoas estão na base da montanha com medo (ou preguiça) de tentarem escalar. Vejo pessoas únicas, com talentos impressionantes. Elas não percebem que elas tem qualidades distintas que as tornam únicas e são essas qualidades que, sem elas perceberem, as deixam sensacionais.

“Na prática, todos somos medíocres de uma maneira ou de outra” (Elias Dorneles)

Saber valorizar seu caminho, seu suor e suas lágrimas é algo difícil. Olhar para meu ídolo e dizer que estou muito aquém é produtivo porque nos embala para seguir a diante e nos desafiar. Mas e o que deixamos para trás? E nossas pegadas na lama? E as cicatrizes que carregamos?

É importante perceber que existe quem eu sou, quem eu acho que sou e como me enxergam. Muitas vezes acredito que como as pessoas me enxergam não representa quem eu sou. Mas a nossa essência se transborda, em cada pequena frase, em cada pequena atitude (existem exceções, claro, longe de mim ditar regras). Então acredito que prestar atenção em como as pessoas te enxergam ajuda a nos colocar sob uma perspectiva diferente. Seja para valorizar o que está sendo feito, seja para refletir sobre nossas atitudes.

A nossa urgência em sermos perfeitos, em termos o salário perfeito, o parceiro perfeito, o corpo perfeito, o cérebro perfeito nos torna ansiosos por um topo de montanha que, na verdade, não existe. Nossos sonhos são meras direções indefinidas. Nossos planos são como traçar uma rota em um mar revolto e um vento forte: podem dar certo, podem dar errado e nos levar a caminhos distintos.

E ai eu me pergunto: para que(m) estamos tentando ser perfeitos? Se no fim das contas, nos momentos difíceis, o mundo se resume a uns 4 ou 5 gatos pingados que te amam incondicionalmente? Sim, são poucos… e sabe o que? Eles te amam e te amarão incondicionalmente. In-de-pen-den-te de como você é ou vai ser. Disso, eu tenho certeza.

Vamos olhar para o topo da montanha, mas também olhar para baixo e valorizar o trabalho de chegar até ali.

Vamos olhar para aqueles que estão alguns metros (ou mesmo quilômetros) acima e saber que eles estão ali há mais tempo? Tentando muito? Lutando tanto quanto nós?

Vamos olhar pros nossos companheiros de escalada e dizer: “Entendo a sua luta. Estou aqui para o que precisar.”

Vamos valorizar o que nos torna únicos, o que faz nos destacar na multidão.

“O contrário de ‘falta’ não é ‘abundância’, é ‘suficiente’“

Em que lugar da montanha você está? Quão difícil foi chegar até ai?

No meu lugar na montanha, a vista é linda em qualquer direção que se olhe.